Caminhada rumo à aprendizagem

Educação Experiencial: a natureza como escola

O termo educação experiencial começou a ser utilizado a partir das experiências educacionais de Kurt Hahn, fundador da Outward Bound, quando ao treinar jovens no manejo de veleiros para lapidar-lhes o caráter, fez a diferenciação entre o que seria o treinamento pelo mar (aprendizado de vida proporcionado pela experiência de velejar) contrapondo-o ao treinamento para o mar (aprendizado operacional das tarefas necessárias para velejar).

Fundamentos da Educação ao Ar Livre

Minha participação no programa Fundamentos da Educação ao Ar Livre (Feal), da Outward Bound Brasil (OBB), me levou a aprender sobre educação experiencial. Mas não apenas sobre isso, me levou a romper barreiras internas e ampliar meu autoconhecimento.

O cenário desta jornada de aprendizado foi o Parque Estadual da Serra do Papagaio, em Minas Gerais. Assim como minha participação no Feal, a criação deste parque marcou o fim de várias barreiras. Estou me referindo às cercas que delimitavam as propriedades da região. Elas começaram a ser levantadas em 1531, com a chegada dos portugueses, e . Hoje apenas compõem o cenário durante deslocamentos livres pela enorme área de vida silvestre.

Educação experiencial na teoria e na prática. A derrubada de barreiras que permite o surgimento da verdadeira essência. É dos aprendizados de 14 dias de curso na natureza que este texto trata.

Desconexão

Dia 1

Cheguei à base da OBB, em Campos do Jordão, em cima da hora. Havia dormido na casa do meu pai, em Taubaté, e nos atrapalhamos no momento da saída. Mas tudo bem, o grupo estava se preparando para a primeira atividade do curso: a conferência dos itens pessoais que cada um havia separado para passar 14 dias na natureza. Não era algo muito complicado, já que havíamos recebido uma lista com itens obrigatórios e opcionais. Porém, o minimalismo desta relação nos levou a querer levar mais coisas.

Instrutor têm papel fundamental

Segunda bermuda, quarta cueca, espuma de barba, shampoo e condicionador. Estes e outros tantos itens foram convidados a ficarem na base. A explicação era de que precisaríamos de espaço livre nas mochilas para carregarmos outros itens pessoais, como saco de dormir, e alguns coletivos, como barracas e alimentação.

Feita a limpa, fomos conhecer o cardápio. Pizza, estrogonofe, carne seca, arroz, feijão, legumes, tabule, frutas secas, pão sírio, pão de queijo, bolo de chocolate. Passaríamos bem longe do Miojo-com-enlatados que muitos acreditam ser a única comida possível em acampamentos.

As barracas eram quatro. Uma para os dois instrutores e três para os nove alunos. Nos dividimos em equipes meio no susto, sem saber absolutamente nada um do outro, e dividimos as partes das barracas. Afinal, já estava na hora de entrarmos na van para o deslocamento até a Serra do Papagaio, que fica no sul de Minas Gerais, não muito distante do Pico das Agulhas Negras (este já no Rio de Janeiro).

Deixando a zona de conforto

Após três horas de viagem, a van nos deixou na fazenda da dona Marieta, localidade do Ribeirão, em Pouso Alto. Como já estávamos no fim da tarde, caminhamos apenas o suficiente para encontrarmos um lugar plano para montarmos as barracas.

Hora de nos apresentarmos “oficialmente” ao grupo. Mas nada de “meu nome é Fábio, tenho 43 e sou jornalista”. Somos convidados a falarmos quem somos. Em muitos anos de atividades em grupos, esta foi a primeira vez que vi este pedido. Mas achei bacana. Afinal, quem estava ali para formar um grupo e conviver por 14 dias era a pessoa, com suas qualidades e defeitos. E aí teve “sou tímido”, “gosto de descobrir a verdade das coisas” e, de minha parte, “gosto de lidar com coisas novas”.

Fomos então às primeiras aulas. Coisa bem básica para quem vai passar dias na natureza: uma gota de purificador a cada 500 ml de água, louça limpa com o mínimo de sabão e sem o uso de esponja, carregar conosco todo o lixo, inclusive borra de café. Para mim, no entanto, a parte mais complicada foi aprender a fazer o “número 2” causando o mínimo impacto no ambiente.

Já tinha experiência em fazer cocô no mato, usando uma pazinha para cavar um buraco e enterrar as fezes. Mas para me limpar havia usado papel higiênico, que também se degrada, mas de forma mais lenta. Só que um grupo de 11 pessoas durante 14 dias causa um impacto consideravelmente maior na natureza, e a OBB optou por uma técnica de limpeza que usa folhas ou gravetos, em associação com um pingo de sabonete líquido.

E aí é que a coisa pegou. Durante os primeiros dois dias este foi um momento psicologicamente complicado para mim. Sempre ficava com a impressão que não tinha feito certo. Porém, com o passar do tempo isso foi se tornando natural e hoje tendo a manter isso nas próximas incursões na natureza. Pra quem quiser saber mais, o Blog da Escalada tem um ótimo artigo sobre o assunto.

Primeira noite na natureza

Bom, a primeira noite foi relativamente tranquila. Dormi aliviado ao perceber que o isolante inflável, que havia se furado aqui em casa, estava segurando bem o ar após ter sido remendado. Apenas os latidos constantes em um canil nas proximidades incomodou um pouco. Mas sabia que seria o último sinal de “civilização” que veria em um bom tempo. Então nem atrapalhou tanto assim.

Dia 2

A preparação do café da manhã foi marcada para as 7h. Um bom indicador que, apesar de estarmos na natureza, não se tratava de férias. Conseguimos finalizar os preparativos e partirmos às 9h. Seria um dia relativamente curto, mas com muita subida. Era preciso “ganhar” a serra. E assim fomos, subindo, parando, nos acostumando com o peso nas costas, subindo, colocando esparadrapo no pé e curtindo o visual.

Chegada ao Pico da Bandeira

Em algumas horas chegamos ao Pico da Bandeira, com 1.930 metros. E poucas coisas são mais empolgantes que alcançar um pico após uma caminhada dura em um dia de céu aberto. Montanha! Ainda na empolgação da subida, começamos a montar acampamento. Logo percebemos que o descampado estava com o solo todo revirado. Segundo os instrutores, quem faz isso é o javali. Este animal, que não tem origem brasileira, se tornou uma praga em diversos estados, principalmente nas regiões Sul e Sudeste.

Bastante agressivo, ele anda em grupos e gosta de comer tubérculos, como batata, cenoura e cebola. Também há registros de ataques a outros animais e a humanos. Não vimos nenhum durante a expedição, mas encontramos solo revirado em mais alguns lugares. De qualquer forma, a dica é subir em árvores para fugir de um ataque.

Dormimos no cume e a única bandeira que avistamos foi a “blupita”. Trata-se de uma flamula branca com a borda azul, utilizada por navios. Seu nome é um aportuguesamento de “Blue Peter”, pronunciado com sotaque britânico. Ela indica que a embarcação está pronta para sair. Mesmo significado da expressão Outward Bound, que dá nome à OBB. A bandeira foi carregada a cada dia por um de nós. Sempre presa na mochila, à vista de todos.

Sem cachorros, nem javalis, por perto, tivemos uma ótima noite de sono. Bom para nos prepararmos para as diversas atividades dos dias que viriam.

Mergulho na natureza

Dia 3

A manhã começou com um belo nascer do sol no Pico da Bandeira. Ainda com a boa sensação da conquista da montanha no dia anterior, curtimos bastante o café da manhã. Tempo de batermos fotos e, nos papos, irmos nos conhecendo melhor.

Quase não percebemos o tempo passando e acabamos nos atrasando um pouco para a primeira aula do dia, que foi sobre navegação por mapa e bússola. Orientação para o norte, escala, curvas de nível. Nada disso era novidade para mim, graças ao curso de guia de turismo que fiz no IFSC.

Traçando a rota

Mas aprender a utilizar a bússola para a navegação, em conjunto com mapa, era um desejo antigo. E daí tive contato com conceitos como azimute, declinação magnética e outros. O curioso é que, na aula, nada é complicado. São conceitos de lógica bem simples, mas que precisam de bastante prática para serem assimilados. E eu iria perceber isso com clareza em alguns dias.

Neste terceiro dia, no entanto, a ordem era guardarmos tudo nas mochilas após a aula, para partirmos para o próximo ponto de acampamento. Conseguimos sair às 11h. Já um pouco tarde, mas ainda normal para quem está pegando o embalo da viagem.

Foi uma caminhada de muito sol, mas sem maiores esforços físicos. Fomos descendo do pico pelas cristas dos morros, cruzando pequenas matas e curtindo o visual. Ao longo do caminho, os papos foram ficando mais interessantes também. Poder e economia global, estilo de vida saudável e outros tantos assuntos passaram pelas trilhas do dia.

Natureza exuberante

E durante este caminhar relaxado, fui me dando conta de que poderia me abrir mais para o grupo. Ao contrário da cidade, onde a norma, ao menos para mim, era nunca se expor sem necessidade, ali era um ambiente emocionalmente seguro, que funcionaria bem como um laboratório para lidarmos com questões pessoais.

Este assunto seria tratado dois dias depois, quando tivemos uma aula sobre a Janela de Johari. Conceito novo para mim, esta teoria divide o conhecimento sobre nós mesmos em quadrantes. Vale conferir os quatro “Eus”:

  • Público: aquilo que eu conheço de mim mesmo e exponho aos demais.
  • Secreto: características minhas que opto por não mostrar para as pessoas.
  • Cego: os traços meus que são percebidos pelas pessoas que convivo, mas eu mesmo não percebo.
  • Escuro: o setor da minha personalidade que nem eu nem as pessoas com quem convivo já tiveram acesso.
Aprendendo sobre a janela de Johari

O grande aprendizado desta teoria é a de que a maior exposição de nós mesmos, e a disponibilidade em ouvir o feedback das pessoas, são ações que ampliam o conhecimento sobre nós mesmos. Elas reduzem especialmente as áreas do eu cego e eu escuro.

Não por um acaso, ao conversar com os instrutores após o programa, eles comentaram que notaram diferença no meu comportamento após o terceiro dia. Sentiram que eu, aí sim, agia como um participante engajado no Feal, e não como alguém que estava lá apenas para tirar fotos e escrever um relato.

Acredito que esta mudança tenha a ver com o próprio espírito da educação experiencial. É preciso estar presente, viver as lições, para que se possa aprender.

Bom, “decisão tomada”, seguimos caminhando rumo ao antigo curral que serviria de local de acampamento. Chegamos lá no fim da tarde, com tempo para armarmos rapidamente as barracas e corrermos para apreciar o belo pôr do sol.

Conversa ao pôr do sol

Enquanto as meninas tomavam banho no rio, nós fomos ao mirante. De lá pudemos ver o vale da vargem e todas as altas montanhas ao seu redor. Nomeamos até o “morro do gavião”, que parecia uma ave, de costas para nós, voando rumo ao por do sol.

Dia 4

O dia começou com uma novidade em nossas atividades. Cada um de nós teria que fazer uma apresentação sobre um assunto de nossa preferência. E quem abriu a agenda foi o João, que falou sobre sua paixão por andar de skate. O objetivo, no entanto, não era avaliar o conteúdo. Após sua fala, fomos estimulados a dar um retorno sobre a forma como ele apresentou o tema.

Fora da zona de conforto

Feedback passado, terminamos de fechar as mochilas e começamos a caminhada do dia. Nosso destino era o que viríamos a batizar de Vale da Geada. Neste quarto dia, a liderança do grupo ficou com a Patrícia. Aliás, vale falar disso um pouco.

Todos os dias tínhamos um líder entre os participantes. A ele cabia zelar pela união do grupo, determinar pontos de parada e lanche e cuidar dos horários, entre outras funções. O objetivo era o mesmo das palestras: nos expor para depois obtermos feedback dos colegas. E ele era dado todas as noites, após o jantar. Ou seja, nos educarmos pela experiência.

Bom, este quarto dia foi de bastante caminhada. Estávamos sentindo o esforço de andar com tanto peso nas costas. Progredimos lentamente e terminamos a caminhada perto do horário do pôr do sol.

Cupinzeiro enorme

Foi o tempo assistir a segunda aula do dia, pegar água e montar as barracas. Já era noite e mais uma vez tivemos um jantar saindo tarde. O papo após a janta foi meio complicado, com a tensão entre alguns participantes crescendo. Havia queixas sobre a não participação de alguns nos trabalhos coletivos, como preparar comida e lavar a ouça. Mas o conflito ainda estava velado e fomos dormir perto da meia-noite.

Lidando com minhas questões

Dia 5

A liderança de equipes era um assunto complicado para mim. Tive algumas experiências boas e algumas ruins nesta posição ao longo dos anos, e andava evitando assumir novos encargos. Mas como o espírito do programa da OBB é o crescimento, decidi me candidatar a líder do grupo no quito dia. Eu tinha um assunto pessoal para trabalhar neste dia: a comunicação com os colegas.

A gravata do líder

E a comunicação já foi fundamental para que, apesar de termos nos atrasado com as primeiras aulas do dia, eu fizesse um acordo com os colegas para mantermos a programação para o banho de rio. Era algo que estávamos precisando. Não só pelo cheiro, mas também para espairecermos os conflitos.

E foi muito bom! Um rio com pequenas quedas e várias piscinas naturais só para nós. Água gelada na medida, para um dia que já estava quente desde cedo.

Meditação na natureza

Bem mais leves, partimos para a caminhada perto do meio-dia. Curta e com bastante descida, a rota do dia foi boa para treinarmos um pouco de navegação. Com a turma caminhando sem muita distração, terminamos o deslocamento às 15:59h, um minuto antes da meta.

Ainda bem, pois esta era noite de pizza! Sim, fizemos pizza em um acampamento selvagem. Uma verdadeira linha de produção foi montada, com parte do grupo preparando a massa, outros cortando os ingredientes e os demais assando tudo em uma Fry-Bake e uma frigideira normal. Foi bastante trabalho, mas elas ficaram deliciosas e em quantidade para empanturrar a todos.

Com palavras gentis dos colegas sobre a minha liderança, terminei o dia aliviado. A comunicação, na base do “o combinado não sai caro”, funcionou muito bem. Percebi que, tomando cuidado com as minhas já conhecidas falhas, dá sim para fazer um trabalho bacana de liderança.

Dia 6

Vamos ou ficamos? Esse dia começou com a dúvida se o reabastecimento chegaria a tempo para fazermos a caminhada prevista. Esta incerteza deu esperança para alguns, que, já cansados dos dias anteriores imaginavam se ao longo do curso teríamos um dia sem deslocamento.

Alegria espotânea

Mas o reabastecimento chegou, a comida foi redistribuída e nós partimos para a caminhada do dia. A perspectiva era de uma rota dura, com bastante subida e um longo trecho sem trilha demarcada no mapa.

Em pouco tempo vencemos o primeiro morro. Uma paradinha na sombra e logo partimos para o segundo. Já sem trilhas no mapa, a navegação do grupo começou sob a responsabilidade do líder Oliver. Aos poucos, no entanto, outros começaram a debater as opções e participar das decisões.

“Brilhante”, foi como o Helder, um dos instrutores, viria a definir a nossa navegação naquele dia. Porém, não bastava apenas definir caminhos. Com as mochilas mais pesadas do que nunca, alguns sentiram dificuldades com o passar dos morros.

Chegando ao topo

O ritmo foi lento e, como começamos tarde, chegamos ao destino com os últimos raios de sol. Neste momento o grupo foi tomado por um mix de emoções. O João corria pelos campos, a Bianca abraçava a todos e o Oliver criava uma força-tarefa para buscar água.

Já no escuro, e com a mediação do Helder, percebemos que já chegamos com água suficiente para o nosso consumo naquela noite. Pôde prevalecer, então, a sensação da conquista. Aliviados, montamos as barracas e fizemos uma “reunião” de 10 pessoas dentro de uma única tenda para 4. Até o Michel, também nosso instrutor, se jogou, contagiado por nossa energia.

Como disse a Patrícia, em uma música criada na hora, foi um “dia lindo pra viver. Aqui na serra do papagaio eu só tenho a agradecer”.

Sorriso ao pôr do sol

Dia 7

Ainda com tempo bastante aberto, fizemos uma longa caminhada pela crista de duas serras. Apesar da belíssima vista, foi uma caminhada muito dura, seja pelo sol constante, seja pela longa distância, seja pelas mochilas cheias.

Sem muita filosofia, nos esforçamos em manter o ritmo e cumprirmos o deslocamento do dia. Neste esforço, cometemos duas imprudências: almoçamos expostos ao sol, sem conseguirmos relaxar, e fomos em direção a um grande erro de navegação, que iria nos custar horas para desfazer. Foi um dos poucos momentos em que os instrutores precisaram interferir mais diretamente.

Bom, etapa vencida, fomos para o alto de um pequeno morro para a aula que falava muito sobre tudo que o grupo vinha passando e ainda iria a passar: fundamentos da educação experiencial. Muito bacana entender um pouco do funcionamento do curso que estávamos passando e ter contato com outras ferramentas disponíveis.

Aula ao pôr do sol

Pena para o Helder, que deu a aula, pois estávamos exaustos e, atrás dele um pôr do sol fantástico se exibia lentamente. Montanhas douradas ao longe e um balé de andorinhas. Não foi fácil para ele competir.

Dia 8

Logo pela manhã, um pico de tensão eclodiu no grupo. Um dos integrantes não saiu da barraca para ajudar na preparação do café. Assim como não tinha participado dos trabalhos da janta no dia anterior. E como vinha se desviando de lavar a louça em todas as refeições.

Vários foram à barraca conversar com ele. Tentar ouvir suas razões e argumentar sobre a importância do trabalho de cada um para o grupo. Mas não houve mudança.

Outro, já não tão paciente, foi lá “resolver” a questão. Provocar para ser respondido. Mas nem assim. Este registrou assim no diário do grupo.

Hoje abri o saco de dormir de um colega. Ali dentro, um corpo. O frágil corpo de um homem. Qual o próximo passo? Me contive, retrocedi. Vamos buscar outro caminho. Em grupo. Andar junto. Viver junto. É um compromisso que assumimos em 11 pessoas. Nenhum problema é só individual.

Aos poucos o grupo foi deixando este caso de lado e seguindo com a arrumação para o café da manhã. de forma um pouco mais lenta, o episódio também foi sendo processado.

O desafio à frente

Bom, a caminhada foi mais uma vez dura. Começamos com uma forte subida, sem trilha demarcada. Mas pelo menos eu estava descansado. Na noite anterior caí na barraca logo após cumprir minhas obrigações com o grupo, dormindo uns 40 minutos mais cedo que o restante dos colegas.

Com esta disposição para caminhar, e confiança na minha navegação, fui seguindo o dia à frente do grupo. Era eles chegarem e eu já partia para o próximo trecho. Apesar de energizado, eu não queria muito papo. O caminhar contemplativo estava muito bom e a falação dos demais estava atrapalhando isso. Atrapalhava os sentidos.

Memórias da montanha

Cheguei a comentar com o Helder que sentia a necessidade de um momento de introspecção para processar tudo que vinha passando desde o começo do curso. Ainda não podendo comentar sobre o nosso próximo, ele apenas consentiu.

Mal sabia eu que, nos próximos dias, eu iria dormir em bivaque, encarar uma temperatura baixíssima com chuva e vento, e ter que navegar por horas sem qualquer referência visual. 

Consolidando a educação experiencial

Dia 9

Acordamos sabendo que não haveria deslocamento. Tivemos duas ou três atividades logo pela manhã e fomos liberados para o banho no rio. Aí a “rádio corredor” já cantou a letra de que teríamos a experiência do solo. Mas o que era isso?

Sala de aula na natureza

Basicamente, teríamos momentos para refletirmos sobre os aprendizados do Feal e, de alguma forma, conectá-los a nossas vidas. Para isso, iríamos nos afastar do grupo e buscar algum local interessante para o pernoite. Havia regras bem claras sobre o que poderia ou não ser levado.

Não teríamos barraca, iriamos “bivacar” nesta noite. Esta é uma experiência que há tempos eu tinha vontade de ter, mas sempre faltou coragem. Naquele momento, no entanto, eu já estava muito a vontade na natureza. Nem mesmo as várias fezes de onça que vimos ao longo dos dias anteriores me preocupavam. Tinha a convicção que elas evitariam qualquer encontro.

Sem muita dificuldade, encontrei um morro para chamar de meu. Um degrau de pedra seria minha casa nas próximas horas. Como cheguei no fim da tarde, tratei de montar o abrigo rapidamente, para aproveitar a luz natural. Para isso, prendi a minha tarp em um arbusto, de um lado, e no bastão de caminhada, do outro.

Tenda de bivaque
Montei a minha tenda com esse desenho em mente

Parece simples, mas não é muito, não. A parte de esticar a tarp envolveu enrolar as cordinhas em pedras pesadas, encher a mochila de pedras e amarrar a cordinha em raízes. Apesar da apreensão de fazer algo tão importante pela primeira vez, achei bastante divertido.

A noite me pegou neste misto de preocupação e satisfação. Um pouco cansado, e sem muito mais o que fazer, peguei no sono logo. Acho que não era nem 19h.

Acordei no meio da noite. O vento tinha acalmado e as nuvens, sumido. Acima de mim, um maravilhoso céu estrelado. Ambiente perfeito para o que seria a materialização desta experiência: escrever uma carta para mim mesmo. E ela começou com “Fabiolândia, agosto de 2017”.

Mandei vários recados para este cara. Sem pressa alguma, fui analisando sucessos e fracassos da minha vida, lembrando de quem está comigo na batalha e refletindo sobre meus anseios.

Pra quem não gosta de escrever a mão, até que as três páginas foram preenchidas com facilidade. Processo concluído, peguei no sono novamente sem grande dificuldade.

Dia 10

Logo após o amanhecer, soou o longo apito que indicava a hora de voltarmos para o acampamento. A carta foi entregue aos instrutores e nos será enviada pelo correio, em algum momento não determinado.

Com a turma menos falante, comemos um belo café da manhã, desmontamos tudo e partimos para o deslocamento do dia. Iriamos caminhar bastante, com uma navegação relativamente simples.

Porém, dois problemas atrasaram o dia. Primeiro, chegamos a uma longa área alagada, que exigiu vários “scouts” para encontrarmos uma rota alternativa. Mais pra frente, com pressa, erramos a navegação. Isso nos custou uma hora de iluminação natural em um dia bastante nublado. Com a chuva querendo se instalar, acabamos montando acampamento bem antes do objetivo do dia.

O local escolhido não era o ideal. Cheio de pequenas árvores e longe da água. No entanto, não demos muita bola. Com a divisão da turma em equipes, conseguimos fazer a janta com agilidade e nos liberarmos para descansar para o dia seguinte, que teria bastante caminhada.

Subida em meio à erosão

Dia 11

Partimos cedo, pois teríamos, além da caminhada “normal”, a subida ao Pico Santo Agostinho, ou do Garrafão, que fica a 2.359 metros sobre o nível do mar. Saímos do acampamento com chuva e fomos caminhando com a navegação bem clara em nossas cabeças. Sem maiores dificuldades, chegamos rapidamente à parte baixa, que não pertence ao parque e tem várias pequenas fazendas.

Os instrutores nos presentearam com um delicioso queijo parmesão fresco, comprado em uma casa próxima ao começo da subida para o pico. Paramos para um lanche bem calórico e iniciamos a subida.

Eu estava particularmente ansioso com este desafio. Picos me fascinam e assustam na mesma proporção. No começo da subida tratei mais uma vez de subir na frente, encarando a parede inicial com toda a energia que tinha no momento.

Subida na chuva

Com a chuva se instalando de vez, segui caminhando forte. O grupo foi ficando para trás, com paradas para descansar, arrumar bagagens e afins. Comigo na frente foram o Oliver e o Dan. Conforme íamos ganhando altitude o vento ficava mais forte e a chuva, mais constante. Percebemos que já não era uma boa pararmos para esperar o grupo. Com o corpo molhado, era parar e começar a tremer.

Subimos então direto ao pico, chegando lá sob forte chuva. A temperatura estava pouco acima de zero e tratamos de montar um abrigo da chuva e colher água enquanto esperávamos os demais. Em aproximadamente 20 minutos eles começaram a aparecer. Percebemos, no entanto, que havíamos parado no lugar o errado. O ponto de acampamento era cerca de 200 metros à frente.

Rapidamente nos mudamos para o local correto e iniciamos uma linha de produção. Uma grande tenda foi armada e sob ela as barracas eram montadas secas. Com as quatro armadas, corremos para colocarmos roupas quentes e secas.

Costura na montanha

E aí surgiu um problema para mim. Com a calça molhada do dia anterior, tinha caminhado neste dia com a segunda calça. E isso era tudo que eu tinha de calças. Até tentei usar a segunda pele com uma bermuda por cima. Mas o frio e a umidade estavam demais. Entrei na barraca para não mais sair neste dia.

Assim, perdi a importante conversa sobre o espírito de equipe na subida. Em conversa posterior com os instrutores, soube que ouve uma reclamação geral do fato de eu e mais três termos subido na frente e deixado companheiros em dificuldades para trás. Ainda que eu concorde com isso, gostaria de estar presente nesta conversa. Poderia então explicar o raciocínio de que, se parássemos, seríamos mais quatro com problemas de frio.

E mais, um dos que subiu na frente comigo também cobrou a minha presença nesta conversa. Afinal, eu é que o havia incentivado a seguir enquanto outros ficavam para trás. Ele concordava com o meu argumento, mas me queria junto para passar isso ao grupo.

Tu te tornas eternamente responsável pelo que cativas

Antoine de Saint-Exupéry, em O Pequeno Príncipe.

Sempre discordei dessa frase por entender que cada um é consciente de suas ações e que, portanto, não pode jogar em um parceiro a culpa por algum problema. Porém, este já era o segundo sinal de que eu precisava rever isso para crescer.

O primeiro tinha sido no dia 8, naquele episódio de quase briga. Lembro um trecho do escrito pelo colega: “Vamos buscar outro caminho. Em grupo. Andar junto. Viver junto. É um compromisso que assumimos em 11 pessoas. Nenhum problema é só individual”.

Dia 12

Sem chuva nem vento, o amanhecer passou tranquilidade. O frio havia diminuído e eu consegui sair da barraca. Fizemos o café da manhã e a primeira aula do dia foi bem no alto, com a vista para todo o vale do Garrafão, 700 metros abaixo. Mais uma vez, não foi fácil manter a atenção só na exposição. E olha que o assunto era bem interessante: como foi construído o conceito “Não Deixe Rastros”, ou “Leave No Trace”.

Quando achávamos que o bivaque e a subida sob chuva e frio tinham sido os grandes desafios do Feal, soubemos que havia mais um, e dos grandes. Os instrutores iriam se afastar e grupo deveria se autogerir até o dia seguinte. Isso incluiria navegação, definição de local de acampamento, alimentação e tudo mais, até nos encontrarmos com a van e os instrutores novamente.

Neblina na floresta

Não bastasse isso, uma nuvem chegou, reduzindo a visibilidade a 10 ou 15 metros. Assim, partimos bastante apreensivos com a navegação. As referências visíveis eram poucas e muito parecidas entre si. Pouco tempo depois passamos reto por um ponto onde deveríamos virar à direita.

Este erro banal gerou várias idas e vindas do grupo em meio a um cenário cinza, frio e com chuva intermitente. Com a moral ameaçando cair, tratamos de manter a objetividade e entender de uma vez onde estávamos no mapa. Após quase duas horas de idas e vindas, reencontramos o caminho e fomos descendo rapidamente. Quando finalmente saímos de dentro da nuvem a sensação foi de alívio geral.

Chegamos no fim da tarde ao “Curralzinho”, que tinha sido nosso local de acampamento na terceira noite do Feal. Fizemos quase uma festa por estarmos em um lugar seguro, sem chuva e pela pizza que jantaríamos naquela noite. Deu bastante orgulho do grupo.

Com aulas teóricas sobre navegação e convivência, e alguns dias de prática, constatamos que estávamos construindo um legítimo aprendizado à moda da educação experiencial.

Dia 13

Logo cedo, tratei de me candidatar à liderança pela segunda vez. Já imaginava que seria um dia descomplicado para esta função. Bastava cuidar da navegação, que era um tanto quanto simples, e manter um bom ritmo de caminhada, pois ainda estávamos a 14 quilômetros do ponto de resgate.

E, mais uma vez, deu pra perceber o amadurecimento do grupo. Fomos caminhando em um astral leve. Soubemos alternar momentos de contemplação com piadas e músicas. Não nos perdemos em momento algum e iniciamos a grande descida até a van. Foram mais de 10 quilômetros perdendo altitude e utilizando tudo que os joelhos tinham a oferecer.

Grupo na natureza

Sem maiores ocorrências, chegamos ao ponto de encontro com apenas 2:30 horas de atraso. Digo apenas porque a névoa do dia anterior tinha nos levado a acampar bem antes do que o ideal, e este último dia de expedição tinha ficado muito grande.

Hora de todos se abraçarem e se parabenizarem pelo sucesso no Feal. Curiosamente, achei esta festa menor que a da véspera. Acredito que sabíamos que o maior desafio desta etapa autônoma tinha sido mesmo a navegação dentro da nuvem.

Em pouco tempo a van chegou e partimos de volta a Campos do Jordão. Estávamos tão cheirosos que a tentativa de ligar o ar condicionado foi abortada rapidamente. Era impossível fecharmos as janelas.

Dia 14

Após um banho de chuveiro e uma estranha noite em uma cama, na base da OBB, acordei para o 14° e último dia. Nossa missão era pintarmos um grande muro da base. Para isso faríamos uma mistura de argila com cola branca, algo que eu nunca tinha ouvido falar.

Pintando o muro

Após umas duas horas, e um tanto sujos de novo, encerramos nossa derradeira missão. Fizemos uma bela macarronada, compramos algumas cervejas no mercado próximo e pudemos, enfim, relaxar.

No meio da tarde caminhei até o portal da cidade para encontrar meu pai. Havia uma pequena multidão por lá. Todos saiam correndo dos carros e ônibus, tiravam selfies e voltavam para suas capsulas. Estranho. Ainda bem que meu pai chegou logo e tomamos o rumo de Taubaté.

Do papo sempre bom com ele, comecei um grande momento de reflexão sobre tudo que tinha passado nas últimas semanas. A descoberta da educação experiencial foi legal. A caminhada e o acampamento na natureza são coisas muito boas. Mas o Feal tinha sido muito mais que isso. Pude fazer uma grande viagem dentro de mim mesmo. Me questionei e me afirmei em vários momentos. Presenciei momentos péssimos e fantásticos de outras pessoas. Fiz fortes elos com vários dos que participaram. E, como sempre acontece com coisas boas, me pergunto quando será a próxima.

Se interessou pela educação experiencial e quer fazer um Feal? Procure o pessoal da OBB!

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